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Hesperio Garra de Aguilhão

Agora tinha a paz que erroneamente procurara quando jovem, e só podia presumir que o que chamavam de serenidade da velhice era algum tipo de deterioração mental, prenúncio de avarias ainda piores, da qual ele por infortúnio ainda não sofria.

Via-se com um cérebro febril de jovem impetuoso, mas encapsulado num corpo ranzinza e avaro, que pouco podia e muito reclamava. A paz, ele a tinha, mas já não a apreciava. Há muito mandara retirar todos os espelhos do quarto, estendendo depois a ordem a todo o castelo. Desbaratava somas consideráveis com os melhores músicos, que tocavam apenas as melodias de seu tempo e moravam no palácio, à disposição da vontade imprevisível do Rei. Não conseguia parar de reler (e, em alguns casos, cheirar) velhas correspondências, e se tornava cada vez mais recluso, ficando a maior parte dos dias isolado no solar dos Jardineiros.

Agora, sem se animar a sair da cama, chamou por Armada Orestes, confidente e conselheiro do Reino há mais tempo do que se importava em lembrar. Armada era um humano sábio, conhecia a alma das coisas e o caminho secreto dos astros.

Uma vez expulsara a morte do quarto de Borooz, que fora envenenado e se contorcia na cama, louco de dor. Tinha velado ao lado do Rei desde que este se quedara enfermo, lendo e tentando decifrar a doença enquanto ela se desdobrava, avançando e derrubando as defesas do corpo de Borooz. Foi ludibriado por ataques diversionários, demorara a perceber os símbolos que agora apareciam no seu caminho, metendo-se por entre suas pernas, chamando sua atenção. Já não sabia mais o que fazer, e foi numa noite em que ele observava a respiração sofrida e entrecortada de Borooz que ele percebeu que a morte havia entrado no quarto. Lutara com ela então sentado num canto escuro do quarto real, de costas para Borooz, fitando o nada e fazendo sons abafados como o de quem empurra um grande peso, ou o suporta. Com o entrar da madrugada, os sons mudaram, e então ele parecia mais negociar, com a veemência e os gestos de quem barganha, até que, ao amanhecer, Borooz levantara-se de ótimo humor e fresco que nem um recém-nascido para encontrá-lo caído no chão ao pé da cama, lívido e inconsciente.

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