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Hesperio Garra de Aguilhão
Armada era o mago e o estrategista do Reino; desvendava desígnios na trajetória das folhas varridas pelo vento, e duas vezes seu julgamento lúcido servira aos deuses em suas tolas e vaidosas disputas. O sonho de Borooz não representaria maior desafio para sua inteligência. Dali a alguns minutos, o mago entrou nos aposentos reais, esforçando-se por fazer algum barulho e ser notado. Durante anos, havia estudado a arte do silêncio e da sutileza, e agora lhe dava trabalho fazer com que sua presença fosse percebida em meio às sombras dos aposentos reais. Por fim apelou para um pigarro, que bastou para fazer com que o Rei o notasse. – Oh, aí está você. Tive um sonho, amigo – disse o Rei. – Descreva-o para mim e tentarei traduzi-lo, com o mandato que os deuses me conferiram – respondeu Adâmias, o corvo por meio do qual o mago se comunicava, e que ficava pousado em seu ombro. Por causa de um acidente com fumos corrosivos em seu laboratório, há vários anos, Armada perdera a fala, e desde então utilizava a ave como porta-voz. – Sonhei que atravessava um rio – disse-lhe o Rei. – Majestade, sua hora está próxima – grasnou Adâmias. A impessoalidade de sua voz áspera, pétrea, deixava transparecer a irrevogabilidade da sentença. Foi apenas a confirmação. Não por acaso a morbidez concentrada dos pensamentos de Borooz naquela manhã levara-lhe à cena em que ele provara o frio mais insidioso da morte, escapando-lhe por pouco: agora o homem que então havia suspendido sua sentença lhe dizia que estava tudo acabado. Borooz riu um riso que também podia ser uma tossezinha rouca e tímida. Ele olhou para a janela, que lhe oferecia um recorte dos morros, para além do vale onde Tarrisan se assentava. – Armada, você se lembra? – perguntou o Rei. – Mais do que gostaria, Borooz – crocitou o corvo, e Armada fez um gesto cheio de velhice impaciente. Borooz lançou um olhar esperançoso para Armada, mas não viu na expressão do amigo a resposta que desejava. – Não, Borooz, é inútil. A morte é uma sapadora incansável e astuta, que, falhando em furar pelas barreiras que eu possa construir, retomará o seu trabalho de dentro para fora. Bem sei: há anos pressinto sua sombra e escuto seus sussurros em meus pensamentos, e me é companhia por demais amarga. 3 |
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