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Hesperio Garra de Aguilhão

Borooz suspirou alto e olhou para o chão, inclinando a testa para diante, onde padrões de sulcos profundos surgiam e desapareciam. Houve mais algum silêncio pensativo, e então Borooz pediu a Armada, em poucas palavras, que tratasse de lhe arranjar uma esposa boa e saudável, pois que ele aceitara finalmente que morreria como qualquer Gentil, qualquer homem, qualquer inseto, e queria um filho. O pensamento de que não deixava descendência agora o atormentava como nunca o tinha feito. Sempre achara que haveria tempo para criar um herdeiro mais tarde, e garantir que a Casa Verde continuasse a exercer o domínio sobre as sete mil, setecentas e setenta e sete Chaves das Coisas. Mas seu tempo consumia-se enfim, e ele subitamente sentiu o medo de apagar-se da existência sem deixar um pouco de si para honrar sua memória.

– Para o mais breve possível – disse.

O mago aproveitou a ocasião para reiterar sua posição com relação às Chaves. Disse-lhe que de bom grado as destruiria, liberando as coisas grandes e pequenas de sua influência, decerto maligna. Disse-lhe também que as Chaves eram um mero artifício para garantir a primazia de uma Casa sobre a outra, e que tal privilégio era resquício de tempos passados, quando as Casas guerreavam por motivos insignificantes, e seus nobres eram jovens e orgulhosos.

Mas o Rei o advertiu contra tais idéias liberais, e o instou a retratar-se perante os deuses, que tinham dado as Chaves para ser guardadas pelas Cinco Casas do Povo Gentil.

– As chaves são um presente divino – disse-lhe.

– Faça apenas o que lhe ordenei.

– Como queira, Majestade – respondeu o corvo.

Armada se retirou, pensando entre outras coisas que afinal era chegada sua hora de deixar Tarrisan.

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