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Hesperio Garra de Aguilhão
Foi para seus aposentos e se sentou no escuro, meditando. A hora pela qual esperara pacientemente havia chegado, e ele se deliciava e torturava pensando naquilo, porque tinha voltado a sentir medo, e isso também era estar um pouco mais vivo. Com a morte do Rei, um grande e significante pedaço de sua vida também se acabava, para subsistir apenas em sua agora já não tão implacável memória, que agora já se assemelhava a uma vasta biblioteca consumida pelo caos, desorganizada, abarrotada de informação e vergada sob o peso desta. A morte de Borooz desatava mais uma amarra que prendia Armada ao porto dos vivos. O mago vivera demais, e sua mente, desperta e aguda feito chama viva por todos aqueles séculos antinaturais trapaceando a morte, ansiava por algum tipo de resolução satisfatória, como se viesse lendo um livro muito grande cujas páginas finais pareciam sempre afastar-se mais. Aquilo o fez lembrar de um outro assunto por um pouco. E então ele pensou que Borooz queria o filho por si, mas também pela Casa Verde, para que os Jardineiros continuassem a guardar as Chaves das Coisas, pelas quais não pouco sangue havia sido derramado. Que fosse. Não seria a primeira vez que planos de Reis tinham sido atropelados e jogados de lado pelas próprias coisas – grandes e pequenas, juntas ou separadas – que as Chaves foram feitas para dominar. O destino seria o que era, e pouco adiantava preocupar-se: faria a sua parte, e esperaria pelo descanso no final. Agora era preparar-se para a mudança, empacotar seus pertences, procurar um novo refúgio e deixar que a história continuasse seguindo – mas, agora, sem sua presença; era ter coragem de virar a última página quando ela chegasse – e ela se achegava depressa. Ainda no escuro, Armada deu uma ordem a Adâmias, para que voasse pelo reino e encontrasse uma esposa para o Rei. Agora, o corvo seria seus olhos. 5 |
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