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Hesperio Garra de Aguilhão

Maril ficou sinceramente admirada da retidão moral e senso de dever de Borooz, e lamentou – por apenas um pouco – não ser capaz de tamanha demonstração de caráter. Sorria intimamente fantasiando os desvarios fúteis a que se entregaria se tivesse tamanho poder nas mãos.

Durante a festa, Maril tentava enumerar todas as Coisas, Grandes e Pequenas, que lhe prestariam obediência se ela obtivesse as Chaves. Permaneceu distante, com um meio sorriso e uma taça de vinho intocada suspensos diante do rosto, até que alguém chamou seu nome. Era Borooz, e queria apresentá-la a alguém.

– Esposa, eis a provedora dos corvos – disse o Rei.

Maril imediatamente prostrou-se de joelhos. Era a primeira vez que ficava em presença de uma deusa.

Cada Casa tinha a proteção de um deus, mas apenas Senise (que, como qualquer divindade, não apreciava que seu nome fosse pronunciado em demasia) compareceu pessoalmente à festa; As divindades das outras Casas enviaram representantes. Atropeus, uma antiga divindade montanhosa, se afastara dos assuntos dos mortais há séculos, desde a extinção da Casa Cinza, de que era o patrono. Ninguém já lembrava se as Casas tinham pedido a proteção desses deuses, ou se eles a haviam garantido por iniciativa própria. Mas nem Gentis nem deuses costumavam questionar as tradições, naquele tempo.

Senise estava radiante; contava piadas, elogiava a elegância de todos; não escondia o orgulho de que sua Casa fosse guardiã das Chaves, e alegrava-se por finalmente ver assegurada a continuação da dinastia Jardineiro. Ela trouxe de presente um berço de assustar pesadelos e uma espada de finíssimo corte, formada por duas lâminas sobrepostas a uma distância de meio centímetro uma da outra, de modo que cada golpe dado com ela equivalia a dois. Tinha a peculiar característica de não se perder nunca, sempre encontrando um modo de retornar às mãos do dono. Chamava-se Espinho, e havia sido confeccionada para duas mãos, e duas mãos somente. Manuseada por quaisquer outras, mostrava uma indefinição de caráter – ou pior, um caráter traiçoeiro, não-cooperativo – que desencorajava expressamente seu uso: seu centro de gravidade parecia mudar, seu peso se alterava; as lâminas nervosas pareciam tremer e reagir exageradamente ao menor impulso, ou mal se mover; como quer que fosse, era o comportamento exato para garantir que seu manuseador logo desistisse de empunhá-la.

Senise partiu após entregar os presentes, prometendo voltar para conhecer o herdeiro. Era deusa, entre outras coisas, da ironia, da Primavera, da cutelaria, da guerra e da doce vingança, e dizia-se que era louca.

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