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Hesperio Garra de Aguilhão
Não houve um único dia, pelos meses que se seguiram, em que Maril não pensasse numa maneira de usurpar o domínio sobre as 7.777 Chaves. Estava em uma posição única, uma janela de oportunidade que jamais se abriria novamente, com Borooz à beira da morte e apenas um bebê entre ela e o trono do Jardim. Para isso era necessário se livrar da criança que agora carregava, e o fio de seu pensamento, afiado várias vezes na obsessão monomaníaca de um único desejo, estacara contra a única questão que realmente importava. Quando pesava os prós e os contras dos métodos possíveis para dar cabo da criança Jardineiro, a questão mais importante era: “ Como fazer parecer um acidente? ”. Já Borooz ficara cego, e quase não saía do quarto, mas jamais parecia ter sido tão lúcido. – Estás quieta, Maril, em que pensas? – perguntava, ou: – Já escolheste o nome de nosso filho, esposa? – e então se demorava a meditar na meia-resposta que ela invariavelmente lhe dava, aborrecida. Nessas horas sentia saudades da forte presença de Armada. Era o único de idade aproximada da sua (na verdade, duzentos anos separavam um do outro, sendo o mago mais velho, mas, como ambos diziam, brincando: “Depois dos quinhentos anos, todos temos a mesma idade... ‘velho'” ), e o único com quem podia conversar abertamente. Precisava da juventude de Maril para ter um herdeiro, mas ela era pouco mais que uma criança mimada. E ele já nem podia deleitar-se admirando a fina beleza que cegara seu julgamento quando a conhecera. 11 |
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