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Hesperio Garra de Aguilhão

Maril se preparava para sair do quarto e ir ocupar seu lugar ao lado do Rei. Antes de sair, deu mais uma olhada no bebê, que dormia no berço.

Hesperio, ela pensou, era bonito. Tinha a tez pálida, num tom indeciso entre o verde e o azul. Já tinha algum cabelo, branco, arrepiado, e ronronava calmamente em meio ao leve perfume de camomila que pairava em seu berço. De quando em quando suspirava profundamente.

Se o sufocasse, pensava Maril, seria a primeira suspeita, pois ninguém mais tinha acesso a seu quarto a não ser sob ordens expressas; os venenos de mulher eram todos conhecidos, e ela não via outra forma além do sufocamento que pudesse se assemelhar a uma morte natural. E assim Maril se viu desistindo de seus planos mal-formados.

Aquela chance de uma vida se perdendo de um jeito tão sensaborão martirizava-a, mas ela tinha muito medo de se arriscar em um plano mais decidido. O que precisava era de um golpe de sorte, algo em que pudesse contribuir apenas um pouquinho, de forma sutil, difícil de rastrear: um empurrão de uma grande altura, uma demora em prestar ajuda...

No fim, conformando-se à sua situação, ela pensou que pelo menos poderia criar Hesperio do modo como quisesse, moldando sua mente, gostos, medos, para obedecer a ela, apenas a ela. Já seria alguma coisa. Com o tempo, e se ele fosse obediente e limpo, ela poderia começar a gostar dele, pensava, enquanto ajeitava seu travesseiro.

Maril se virou para sair, contrariada e imersa nessa sorte de pensamentos – e por pouco não deixou de notar a grande e horrenda aranha que vagarosamente entrava no quarto.

15

 

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No próximo capítulo:

A Morte ronda o herdeiro do Jardim; Um assassino inocente é punido; Hierofania.

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