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Hesperio Garra de Aguilhão

O Falcoeiro não tomou lados nem participou da guerra, mas acolheu sob sua proteção, em segredo, os poucos corajosos humanos que foram se esconder em suas terras, supostamente infestadas de fantasmas dos Gentis Cinzentos.

Milton Miranda era um Rei sem súditos e seu reino era uma cadeia inabitada de montanhas que de um lado dava para o mar encapelado e gélido, de outro para vales áridos, esbatidos por um sol severo. Seu trono era o topo escavado de uma montanha feia. À noite, dormia encostado a uma única árvore ressequida. Miranda não tinha esposa, amigos ou exército. Em um ano talvez dissesse duas palavras, para ninguém ouvir. Enquanto todos os outros Reis tinham suas coroas – de flores, de ferro, de conchas e de argila, Milton Cinzento só possuía coroa durante os segundos em que o vento roçava suas têmporas. Passava seus dias em pé, no topo de seu “castelo”, vigiando os vales abaixo, ou caminhando por entre as sendas tortuosas que circulavam as montanhas.

O Falcoeiro estava tremendamente desgostoso da situação beligerante entre seus primos. Lentamente, com método, acumulava raiva da cobiça que, a seus olhos, ameaçava exterminar o Povo Gentil.

Num dia em que estava especialmente aborrecido, viu abaixo de si como que um exército de centenas de formigas avermelhadas invadindo seu vale. Eram homens em armaduras, barulhentos, em atitude francamente agressiva, assustando os moradores humanos que tinham se estabelecido por ali. Em questão de minutos já tinham destruído as tímidas plantações que os teimosos humanos tinham começado, e já começavam a atear fogo em algumas construções.

O Rei-em-Cinza pegou seu cajado e, amparado pelo vento, pulou em direção às formiguinhas.

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