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Hesperio Garra de Aguilhão

Agora era o final da chuva. Apenas uma leve camada de sereno descia sobre as coisas, enquanto o vento frio resfolegava e escoiceava por entre as folhas e árvores do bosque próximo. O fim de tarde era triste e úmido; acima, o céu era uma placa cinza com nuvens baixas dentro das quais brilhava de quando em quando a luz fraca de algum relâmpago distante.

Sobre a clareira à margem da estrada de barro e húmus, subiam as colunas de fumaça negra resultantes do incêndio, desprendidas dos restos carbonizados de duas carroças emborcadas com as rodas para cima. No chão, no centro da clareira, os restos espalhados de uma fogueira de acampamento, desfeita pelos cascos dos cavalos dos dois bárbaros nômades que haviam irrompido da estrada, de espadas desembainhadas, para roubar a pequena comitiva que tinha parado ali para descansar. Tinham avançado com uma fúria tão monstruosa quanto desnecessária, bêbados, rindo e praguejando, derrubando as duas mulheres e os dois homens no chão, pisoteando-os sob os cascos dos cavalos para ali mesmo executá-los. Saquearam os corpos e as carroças, e conseguiram com isso algumas roupas velhas, algumas ferramentas de lavrador e quase nenhum dinheiro. Frustrados pelo dispêndio de tempo e energia, consideravam a sorte da única sobrevivente, uma agora órfã menina de seus sete anos, mal coberta por trapos sujos de lama e sangue, tiritando de frio, fome e medo. Ela segurava a mão fria da mãe, que estava estendida de bruços no meio da água barrenta da chuva que escorria pelo chão, e soluçava, batendo os quatro dentinhos brancos. Olhava de um para outro homem com um olhar que era de súplica muda e medo; grossas bagas de muco escorriam-lhe pelo queixo que batia. Nem sequer chorava.

 

 

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