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Hesperio Garra de Aguilhão
Então houve um grande clamor e estalar de cordas; o cavaleiro abriu os olhos cinzentos para ver os mercenários debandando sob uma chuva de pedras enormes e flechas em chamas vindas da retaguarda. Levantou-se com dificuldade, trêmulo, e recuperou sua espada, suja de areia. Umedeceu a espada na bainha e avançou prontamente para um pequeno grupo de três soldados retardatários que obtinham vingança de um jovem ensangüentado, que, desarmado, se arrastava pelo chão, desviando-se por pouco dos golpes que recebia. Bastou a espada do cavaleiro roçar o braço erguido de um dos atacantes para que este deixasse cair a espada, gritando e caindo ao chão como se houvesse sido atingido de morte. Os soldados restantes perceberam que o cavaleiro tinha uma lâmina envenenada, e mais não foi preciso para que abandonassem suas idéias de retaliação e fugissem, praguejando e chamando-o de monstro. A batalha era como um grande homem doente: sofrera os espasmos e a demência da febre, e agora entrava num torpor extenuado cuja duração não se podia prever. Em meio aos clarões de calmaria que se abriam no meio do campo, o cavaleiro ofereceu a mão para o jovem soldado se levantar, mas este instintivamente a recusou. O cavaleiro viu em seu rosto o esgar de repugnância que sua manopla escura – cujos dedos secionados de vermelho faziam parecer uma caranguejeira – provocara. O cavaleiro retirou a mão, e dali se afastou depressa, envergonhado. Atrás de si ouviu o soldado se aproximando, mas não fez modo de parar. – Muito obrigado, senhor cavaleiro. Devo-lhe minha vida. Espero ter chance de retribuir o favor – disse o jovem, adiantando-se e estendendo a mão para o cavaleiro, tirando o barrete vermelho encardido que cobria sua cabeça e revelando uma farta cabeleira loira.
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