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Hesperio Garra de Aguilhão

O recém-duque deixou a taça de vinho numa mesa do jardim, aborrecido, e nada mais disse até o fim da entrevista; a bebida tinha perdido o gosto, e ele sabia intimamente que não viveria o bastante para gozar sua nova posição. Quando saíam do jardim, por um instante Hesperio se voltou. Pareceu-lhe ter ouvido algo como um choro fraco, abafado e bem ao longe.

– O que foi, Hesperio? – perguntou Toramim.

– Nada, Majestade. Ouvi um... canto; provavelmente algum pássaro – disse Hesperio, e se retirou.

Enquanto seguia pelos corredores, Hesperio teve que ouvir os impropérios e reclamações de Emínias, que dava socos na cabeça e suspirava muitos “ais!”.

– Não há nisso senão morte – dizia.

Hesperio fez o melhor que pode para ignorá-lo; várias vezes, nos dias que se seguiram antes de partirem, teve ganas de arremessar Emínias pela janela, para onde seu incessante palavrório não o pudesse incomodar, mas se conteve.

Por fim, antes da partida, Emínias havia se controlado, e se agarrava ferozmente à idéia de que seriam capazes de parlamentar com Milton Miranda, e fazê-lo ver a justeza de sua proposta de aliança. “Otimismo é a chave”, repetia mais para si do que para o companheiro – e esta sua fase de desesperada e eufórica aceitação era ainda mais irritante para Hesperio, que uma vez se surpreendeu tocando pelas costas a gola da camisa de Emínias, num ímpeto defenestrador.

Em três dias os preparativos foram finalizados. A viagem iria durar um mês, aproximadamente, e eles teriam que ir a pé, haja vista a maneira como os animais se comportavam na presença de Hesperio.

 

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