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Hesperio Garra de Aguilhão

Assim começaram a jornada: com Hesperio decidindo ignorar Emínias o mais que pudesse, e este decidindo perturbar Hesperio com todo afinco.

Hesperio divagava, olhava para o céu e ligava as estrelas com pontos, parando de quando em quando para colher plantas misteriosas que brotavam pelo meio do caminho, submerso na torrente de impropérios e argumentos dissuasivos com que Emínias procurava fazê-lo ver a loucura que era essa jornada às montanhas de Morel.

– Não há nisso senão morte – ele dizia.

Apenas uma vez Hesperio replicou, dizendo que Emínias não era obrigado a fazer a viagem.

– Não é assim que as coisas funcionam! De onde saíste, de um buraco no chão?

Hesperio voltou os olhos cinzentos para Emínias.

– Desculpe – disse Emínias.

– É só... que eu não queria morrer – concluiu, amuado.

– Tu não precisas morrer, se não quiseres.

– O que quer dizer com eu ? E quanto a ti?

– Se esse Rei Miranda for tão mortífero quanto se diz... – disse Hesperio, e mais não disse.

Emínias não entendeu e achou melhor não falar mais nada, mesmo ainda tendo uma ou duas observações impertinentes a fazer sobre eles terem que ir a pé, uma vez que por nada no mundo os cavalos sossegassem na presença de Hesperio. As mulas, puxadas por longas rédeas, vinham bem mais atrás, e mesmo assim se mostravam inquietas.

Andaram ainda mais um par de horas, quando decidiram parar e restaurar as forças, mas apenas Hesperio comeu. Emínias ficou enjoado quando viu o cavaleiro tirar uma dúzia de gafanhotos e besouros de palmeira secos de uma sacola e jogá-los displicentemente na boca, mastigando-os ruidosamente e sugando-lhes os sucos com prazer.

 

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