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Hesperio Garra de Aguilhão

A comida dos humanos tinha um sabor repugnante para Hesperio, e era dolorosa para sua constituição. Durante anos, ele viveu entre os horrores da fome e o gosto vil da comida que os humanos consumiam, gosto que ninguém além dele parecia perceber, enganados por toda sorte de temperos que maltratavam as vísceras e ressecavam a língua. Fazia apenas uma refeição por dia e comia de olhos fechados, quase sem mastigar; por muito tempo chorara de raiva e repugnância. Nos primeiros anos tinha acessos de vômito e fortes cólicas que o prostravam por dias, suando frio e mordendo os lábios. Agora, seu organismo mutante já tinha mais ou menos se acostumado, mas nem assim a experiência de sentar-se à mesa era menos traumática – por ser simplesmente repugnante – para ele. Senise não podia ter pensado numa tortura mais cruel. Era como se, para sobreviver, um humano tivesse que esporadicamente mastigar nojeiras, beber lodo.

Foi por isso que, tendo passado uma temporada nos desertos, Hesperio muito se alegrou em descobrir que aos humanos as delícias da entomofagia não eram de todo negadas. Lá ele viu crianças bronzeadas enfiando varinhas em troncos de palmeiras, para retirar larvas moles de besouros, que, fritas, eram petiscos disputados, ricos em gordura. E mercadores que vendiam gafanhotos caramelizados e ninfas de libélula nas feiras de domingo, e jarros repletos de formigas secas, misturadas com açúcar e canela – aditivos que ele alegremente dispensava, quando ia aos mercados se abastecer. Foi mais feliz a partir dali, e mesmo sem poder basear todas as suas refeições em insetos, foi capaz de balancear o nojo que sentia em morder um pernil amanteigado com o expediente de logo em seguida jogar dois ou três gafanhotos goela abaixo.

Os humanos, ao que parece, não eram todos iguais, pois o que era perfeitamente aceitável numa mesa de família na arenosa e distante Firjâmia – onde os gafanhotos vinham à mesa vivos, numa gaiola – não o era numa taberna empedernida de Nova Saniréia, onde mais de uma vez ele foi repreendido pelos comensais, que lhe diziam: “Homem, se vais comer essas nojeiras, por Kalim, faça-o lá fora! Estamos tentando comer aqui!”

 

 

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