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Hesperio Garra de Aguilhão

Hesperio engasgou e perdeu o equilíbrio. Sua vista começou a ficar turva. Nunca em sua vida sentira tamanha decisão e propósito como na expressão vazia do boneco de lama que o estava estrangulando.

Por cima de seu ângulo de visão, Hesperio pensou ver um fino e avermelhado braço de menina se estendendo, agitado. Era Vanerii, que se esticava o mais que podia sobre os ombros de Hesperio, tentando tocar a cabeça do golem, apenas para descobrir, apavorada, que o barro ali ainda estava seco, e que não conseguiria apagar a escrita a tempo. Foi a última coisa que ele viu. Os joelhos de Hesperio fraquejaram e ele mergulhou, sentindo as mãos de barro e pedra fraquejarem um pouco, submersas – mas não muito. Seu pescoço cedeu, sua visão foi toldada por trevas, e ele desabou como morto no fundo do rio. Foi arrastado por uma correnteza negra, e afundou lentamente no leito lodoso da inconsciência.

Não soube quanto tempo se passou; depois, lhe pareceria que tinham sido apenas alguns segundos de paz. Quando enfim voltou para o mundo dos vivos, alguém o estapeava ao ritmo de gritos dados numa voz irritante e autoritária:

– Ei! Ei, carrapato!

Hesperio voltou a si a tempo de aparar o próximo golpe. Era Vanerii, toda molhada. Ela suspirou então, sorriu e passou as mãos pelos olhos úmidos, e não pôde conter as perguntas e as exclamações.

–Ah, você voltou. Ainda bem que você voltou, eu fiquei... sem saber o que fazer para ir pra casa. Não conheço nada daqui. Você está melhor? Ei, seu coração não bate nunca? Só fica zumbindo?

Hesperio não respondeu. Ambos ficaram alguns segundos no leito do rio, sentados, tossindo.

 

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