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Hesperio Garra de Aguilhão
Maril não fez menção de se esquivar do golpe de Hesperio. Tinha os olhos fixos nos dele, e, momentaneamente fora de si, disse, estendendo-lhe a mão, ignorando os gritos de pânico, que aumentaram quando um novo impacto fez com que grandes pedaços da ponte se desprendessem e desabassem no abismo: – Vem comigo. Esquece tudo e eu também esqueço, não me importa. Vem comigo. Mas não pôde ouvir a resposta, se resposta houve. Um de seus guardas a derrubou a tempo de evitar que ela tivesse a cabeça separada do corpo por um guerreiro Pescador. Hesperio aproveitou e começou a recuar. A moça que ele levava nos ombros fazia um grande esforço para não desmaiar, e, como sonâmbula, se agarrava com todas as forças ao seu pescoço, balbuciando incoerências. A ponte estalou mais uma vez, e Hesperio deu um pisão em falso. Antes que tudo viesse abaixo, ainda pôde ver Maril, desacordada, sendo arrastada para a margem de onde viera por dois guardas. O ímpeto da batalha já esmorecia, pois os Pescadores compreenderam o que estava por acontecer. Dezenas de corpos ensangüentados cobriam a ponte, que recebeu um último golpe da voragem e finalmente cedeu. Hesperio caiu. Girou no espaço, cego pelo pó de pedra, e sentiu o mar sob si, turvo e barulhento, e acima de si ouviu o assustador estrondo de pedra ofendendo pedra, de gigantescos blocos se chocando uns com os outros, que iriam esmagá-lo e sepultá-lo para sempre no fundo do oceano. Pensou apenas: “Então é assim...”, e fechou os olhos, pairando no espaço. Um instante de dor e um estalo em seu pescoço foi tudo que sentiu. Era agora como um boneco inanimado no qual se agarrava, semi-inconsciente, a moça que tentara salvar. Pendurado pela cintura em um laço apressado feito por um esbaforido Emínias – cujo corpo ainda não esquecera os dezoito anos de pesca em mar aberto, sendo, afinal de contas, um laço apenas o análogo seco da rede de pesca – que agora gemia e resfolegava, caído na beirada do precipício, sentindo a corda lentamente escorregar de suas mãos suadas, que a dor deixava mais e mais fracas a cada segundo que passava. * * *
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