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Hesperio Garra de Aguilhão

Antero estava farto. Farto de ser enviado para os confins de Tarrisan, para castelos decadentes onde era recebido com desdém, para túneis imundos onde ele rastejava, tateando por passagens secretas, ou para tediosas pesquisas nos registros dos feudos, onde pudesse estar assinalada alguma remessa de bens do castelo de Borooz para algum recanto escondido do Reino. Ele tinha estado para lá e para cá nos últimos anos, e perdera todas as chances com que tinha sonhado, de vir a se destacar no campo de batalha e ascender a algum posto mais alto. A Guerra Gentil poderia vir a se decidir rapidamente numa mudança de alianças, na descoberta fortuita das Chaves ou de qualquer outra forma; para Antero, era imperativo voltar aos campos de batalha, comandando seus homens, antes que a guerra acabasse e ele fosse surpreendido, não como o valoroso soldado que sabia ser, mas sim como o empregadinho de Maril, correndo de um lado para outro atrás de um artefato de cuja existência já começava a duvidar.

Maril Lunin, enfim sozinha, jogou-se na cama. Seus pensamentos foram na direção do estranho que vislumbrara na ponte, e ela se afligiu ao relembrar o momento em que ele caíra no abismo. Ninguém poderia ter sobrevivido àquela queda, ela pensava, mas não conseguia se forçar a parar de alimentar esperanças de um dia voltar a vê-lo.

Por toda a noite Maril revirou-se na cama num sono vazio, leve e agitado, de onde acordava sobressaltada de quando em quando, achando ter ouvido algum barulho, prova incontestável, conquanto efêmera, de que o cavaleiro que agora assombrava seu peito entrava em seus aposentos, e a qualquer momento pousaria os finos lábios sobre sua testa febril.

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