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Hesperio Garra de Aguilhão
Primeiro, jamais gostara do ofício da família, e ficava cada dia mais sensível ao leve aroma de peixe que em tudo penetrava – nos pães, nos cabelos, na bebida, nas roupas, nos beijos. Outro motivo, mais forte, é que um jovem e arrogante Azul chamado Sezser Narral havia lhe roubado a irmã, e a levara para debaixo d'água, para nunca mais voltar. Era ela quem o havia criado, pois a mãe de ambos falecera quando Emínias nasceu. O bracelete que ele usava em seu braço foi seu presente quando ela sumiu na noite lhe implorando para que ele não acordasse o pai. – Não posso culpá-los, não é verdade? O amor faz dessas coisas. Hesperio concordou com a cabeça, mas a verdade é que não tinha a mínima idéia do que viesse a ser esse fator – o amor – que os humanos invocavam tão freqüentemente quando queriam justificar suas não poucas escolhas erradas. Toda uma gama de emoções humanas não lhe dizia o menor respeito. Hesperio conhecia a tristeza, mas não como uma emoção que pudesse sentir ou deixar de sentir de acordo com o que lhe acontecesse. Estava imerso em tristeza todas as horas do dia, e a amargura era seu estado natural. Vivia cercado por seres de aparência horrível, que o interpelavam, exigiam sua atenção, seu riso ou seu entendimento. Mas ele era completamente à parte do mundo dos humanos, não entendia seus costumes, abominava suas manias e desinteressava-se de tudo. Só experimentava um pouco de paz mental quando estava completamente só, viajando, concentrando-se em pôr um pé após o outro para avançar em seu caminho, ou então no meio da mais sangrenta batalha, onde se atirava rápido, ágil e mortal, sem um segundo de hesitação. Ali relembrava seus dias de tarântula caçadora, embora o que o impelisse para a batalha fosse agora um motivo bem diverso.
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