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Hesperio Garra de Aguilhão
Pouco a pouco uma sensível mudança começou a se operar em Hesperio. Pela segunda semana de viagem, o cavaleiro, que antes só abria a boca quando absolutamente necessário, agora tinha dado para fazer uns apartes desastrados e insossos nas conversas de Emínias e Novane, dos quais saía geralmente ainda mais encabulado. Como quando ela contou que fugir de casa tinha lhe servido duplamente, pois havia escapado de um destino tedioso e sufocante ao mesmo tempo em que havia conquistado a liberdade para conhecer o mundo fora de sua pequena cidade, coisa com que sempre sonhara. “Matei dois coelhos de um só golpe”, ela tinha dito, orgulhosa. - Oh, isso me lembra de uma vez em que eu degolei dois homens com um só golpe de espada... - começou Hesperio, enquanto Emínias, envergonhado, fazia com a mão seguidos movimentos de corte na altura do pescoço, como a dizer: “Basta! Basta!”. - Sim, exatamente - continuou Hesperio, animado, entendendo errado o sinal do amigo: - Um golpe só e as cabeças deles rolaram pelo chão. É que eles estavam muito próximos e eu, pra poupar tempo... eu... o quê? O que foi? A expressão no rosto de Novane - provavelmente chocada, definitivamente enojada - lhe alertou enfim para a impropriedade do assunto. Hesperio virou o rosto, embaraçado, tentando afetar interesse por alguma coisa que havia ficado para trás na estrada, se arrependendo em seguida e se sentindo ainda mais estúpido, pois não havia sequer uma touceira de capim que pudesse merecer sua atenção no caminho deserto. Ficou ali parado ainda um tempo, sem virar o rosto, que ardia, enquanto Novane e Emínias se afastavam, ela rindo o mais silenciosamente que podia, genuinamente compadecida da estranheza do cavaleiro, ele secretamente satisfeito de fazer melhor figura que Hesperio diante da moça.
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