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Hesperio Garra de Aguilhão
Atrás dele, em um trono negro, presidia à cena uma magra e morena figura, de rosto apequenado e expressão ávida. Era Eliadaque Moor, primeiro-conselheiro de Toramim, e seu secreto sacerdote negro, servidor dedicado de Benal-Touron, o Senhor das Forcas. Analisava a composição da cena diante de si como quem analisa um quadro: Os tons e intensidade da pouca luz que se esbatia sobre a cela no decorrer do dia; Toramim Quatril, ajoelhado numa posição ridícula com um laço simbólico ao redor do seu pescoço e um punhal na mão esquerda; e Viola, uma das muitas aias de quem Toramim tinha se aproveitado, que engravidara e tivera um filho que agora jamais ninaria em seus braços, e que dentro em breve deveria ele também, aquele filho, visitar aquela cela escura, indefeso, e entender-se com o punhal sacrifical de Toramim. E Eliadaque viu que sua influência sobre Toramim Quatril era forte e profunda, e que seu deus estava satisfeito com seu trabalho. Maril repousava em seu quarto, de onde tinha uma excelente vista dos campos verdes de Tarrisan, onde agora nada se movia. E embora a imobilidade lhe emprestasse a aparência de placidez e repouso, seu interior encontrava-se agitado por uma torrente de preocupações, fortes temores e frágeis esperanças. A aflição que invadira seu peito não dava sinais de recuar. Imóvel em seu leito, ela pensava no Reino que tinha que administrar, nas retaliações que iriam advir como resultado de suas ações impensadas, e, mais nitidamente que qualquer outra coisa, pensava no rosto do cavaleiro, que agora devia estar sepultado no fundo do oceano. Pensando nisso, ela sentia o ímpeto do choro, mas não podia chorar sob risco de ofender o Dia, e esforçou-se o quanto pôde para conter a frustração e as lágrimas. Se ao menos ela tivesse encontrado as Chaves... Haveria uma Chave da Morte, com certeza. E com ela, seria possível trazer o cavaleiro de volta. E Maril pensava, em seus desvarios românticos, que ele ficaria tão grato por ter sido ressuscitado, que sem dúvida lhe ofereceria seu amor incondicional como gesto de gratidão.
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