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Hesperio Garra de Aguilhão

O pequeno grupo de Hesperio seguia viagem num ritmo constante, caminhando durante todo o dia, com uma pequena pausa para o almoço por volta das duas da tarde, e ceando e descansando à noite, partindo sempre no dia seguinte antes do Sol nascer.

Emínias havia desperdiçado toda uma noite de sono preparando algumas armadilhas apenas para, na primeira pausa para o jantar, descobrir que Novane não seria capaz de preparar uma refeição decente nem que sua vida dependesse disso. Ele fez um pequeno discurso sobre a desonestidade e a falta de gratidão que campeavam pelo mundo e soltou os dois coelhos que havia capturado, voltando decepcionado à ração de bolachas e carne seca.

Novane, ao contrário de Emínias, mostrou-se muito interessada na dieta de Hesperio, e o encheu de perguntas sobre o sabor, textura, consistência e propriedades nutritivas dos insetos que ele consumia, e não sossegou até provar um gafanhoto, entre caretas, gritinhos e risos excitados. Hesperio não pôde evitar rir - ainda que quase imperceptivelmente -, e Emínias, por mais esforço que fizesse, não foi muito mais adiante em seus esforços para antipatizar com a jovem. Ela gostava de uma boa conversa tanto quanto ele, e logo ambos caminhavam lado a lado, ele já a tratando por “você”, trocando anedotas sobre suas cidades, e impressões sobre cada ínfimo detalhe da paisagem, enquanto mais atrás os seguia um silencioso e distante Hesperio.

Novane lhes disse que tinha vinte e dois anos (dois a mais que Emínias), e que filha mais jovem e única mulher em uma família de seis irmãos, e era essa a desculpa que dava para explicar seu comportamento às vezes por demais expansivo e franco. Dizia que havia fugido de casa quando seu pai manifestara o intuito de arranjar seu casamento com um mercador abastado de uma cidade vizinha, mas tirando a idade, todo o resto era uma mentira grosseira.

Muito embora passasse a maior parte do tempo com Emínias, não era incomum que o jovem a surpreendesse olhando longamente para trás, na direção do cavaleiro.

- Feições curiosas, não? - ele uma vez comentou, referindo-se a Hesperio e seus cabelos brancos, eriçados para cima, aos seus grandes olhos cinzentos que pareciam não piscar nunca, e às longas sobrancelhas articuladas que ultrapassavam a moldura do seu rosto, que se moviam às vezes, como patas de aranha.

- É... curioso - respondeu Novane, mais ruborizada do que Emínias gostaria de ter notado, ao se ver surpreendida.

 

 

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